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Amarelar
Apenas mais uma tarde como tantas outras; nada de diferente, pois nada havia
mudado. Pensava ter visto algo, diferente, mas estava certamente enganado. Sua
vida passava-se naquele retrato, cujas únicas mudanças eram o
esmaecimento das cores e o envelhecimento do papel com o contar dos anos. Todas
as tardes passavam como se sequer tivessem chegado a acontecer; simplesmente
porque os acúmulos da vida para ele eram unicamente a poeira que cismava
em ajuntar-se por sobre sua cabeça. Não se preocupava em limpar-se
dela, quem sabe pudesse apenas nada fazer, e assim esperar que algo enfim acontecesse.
Mas não era esta a ordem natural de sua vida, e muito menos da dos outros,
de forma que a poeira continuava a ajuntar-se sobre sua cabeça, as cores
continuavam a esmaecer, e o papel continuava a amarelar.
O
sol sempre se punha do mesmo lado, apontando seus últimos raios quentes
e luminosos diretamente para sua janela. Aquela luz tremendamente forte que
nos dias de verão teimava em invadir cada espaço de seu pequeno
quarto no décimo primeiro andar do prédio onde morava bem de frente
para outro prédio: a única vista que tinha. Sonhava em algum dia
morar naquele outro ninho, com bela vista para a praia, mas por ora tinha que
se contentar com a janela do vizinho, quase sempre fechada.
Ficava
pensando, sentado em sua cama, sobre as coisas que poderiam ter sido, mas por
diferentes razões que não sabia explicar, não tinham. Não
lamentava, apenas pensava em como teria sido ser alguém diferente. Pensava
nas escolhas e decisões que em nada mudaram sua vida. Apenas amarelavam,
e amarelavam, junto daquele que timidamente se escondia no cenário urbano
carioca.
Lembrava-se
dos dias que não eram amarelos, quando ainda era criança, e podia
escolher ser diferente, ou quem sabe igual aos outros. Pensava em sua escolha,
pensava na escola, no belo sorriso maroto que sentava na carteira da frente,
com seus longos cabelos caindo sobre seu livro. Talvez pudesse ter feito algo.
Quem sabe uma palavra, uma frase.
Lembrava-se
do dia em que lhe chamaram pra nadar. Como havia ficado feliz, ainda que não
soubesse nadar. Ao menos poderia estar ao lado deles, afinal nunca o haviam
convidado. Que grande honra. Talvez pudesse ter feito as coisas diferentes naquele
dia, mas, por Deus, era apenas uma criança! Que poderia esperar-se de
uma criança? Que poderia esperar-se agora que já não mais
era? Talvez apenas amarelar, era isso. Dentes que amarelavam a cada gole de
café quente que tomava assim que chegava, ainda a tempo de observar o
pôr-do-sol de sua janela, ou pelo menos aquilo que ele conseguia ver,
antes do sol colocar-se atrás da massa cinza que lhe tapava a visão.
Nunca pudera ver tudo, tinha que se contentar apenas com aquela visão
parcial e limitada do amarelar. Assim como a vida.
Sentado
em sua cama lembrava-se da primeira vez que ouvira os ruídos de seu colchão.
Ah, como gostava daquela guria. Era uma pena que tivesse ido embora, mas a vida
tem dessas coisas, diziam eles. Poucos tentaram consolá-lo, enquanto
os outros, bem, não havia outros. Apenas alguns. Alguns eram todos. Não
sabia se poderia agradecer ou amaldiçoar, mas o tempo passava, e a foto
daquela bela jovem também amarelava, como todo o resto. Ainda devia estar
guardada em algum lugar, talvez numa caixa de papelão, escondida da vista,
perdida para que talvez se perdesse também de sua memória.
Mas
memória, menina vadia e traiçoeira que nos engana sem pudores.
Pudera esquecer-se de todos aqueles dias que ainda brilhavam quentes em sua
mente. Aqueles dias longe do amarelar da vida. Dias que não precisavam
de escolhas, dias que apenas precisavam ser vividos, com a euforia dos jovens
que ainda não enxergam o sol se pondo.
Mais
um café. Se ao menos gostasse de café. Ainda não sabia
porque tomava café, era uma terrível compulsão, um forte
desejo mental, estava adestrado, embora não gostasse. A cor negra da
bebida quente lhe lembrava da morena que jazia perdida em sua memória.
Havia descoberto a razão. Acreditava que as coisas deveriam ter algum
sentido. Apenas ainda não havia encontrado o seu. Não mais procurava,
estava cansado, de nada fazer.
Sentou-se
na beirada da cama tentando ver os últimos raios amarelos que já
iam saindo de seu campo de visão, escondendo-se, fugindo de suas mãos
e esfriando-lhe o corpo. Não queria perder os últimos momentos,
que algumas vezes podiam ser os mais belos. Não sempre.
Observava
atentamente, tentando não lembrar de nada, tentando apenas pensar na
quente cor amarela que invadia seu quarto pelos últimos minutos. Alguns
últimos pensamentos ainda lhe vieram à mente antes que pudesse
desligar-se completamente. Viu o mundo escurecendo, seu pequeno quarto tornar-se
preto, o amarelo que pela última vez brilhava ali. Deitou-se em sua cama,
viu seu pequeno mundo desaparecendo enquanto fechava os olhos, e dormiu.
By Mauricio Fonseca Jr.